IBM começa a buscar profissionais até nas escolas de ensino médio

Fonte: Estado de São Paulo - em 02 de Outubro de 1987
Ana Paula Lacerda

Após procurar profissionais no mercado de trabalho e nas universidades – e ainda assim não suprir sua demanda -, a IBM resolveu investir em uma nova frente: as escolas de ensino médio. A empresa começou este ano a fazer parcerias com escolas técnicas para incluir em seus currículos disciplinas que cubram as necessidades da empresa. Em contrapartida, a IBM ajuda a treinar os alunos e dá a eles oportunidade de contratação.

Em primeiro projeto, fechado em Belo Horizonte com o governo de Minas Gerais, serão treinados 500 jovens, dos quais a IBM se comprometeu a contratar 320. outras parcerias estão sendo fechadas em São Paulo, Campinas, Rio de Janeiro e Salvador. “Resolvemos contratar mais cedo, e deixar que o jovem cresça dentro da IBM”, diz a gerente de RH para parcerias educacionais, Sirlene Toledo. Para o ano que vem, a empresa iniciará as parcerias com escolas de ensino médio tradicional.
“Como esses alunos não têm formação técnica, a aproximação e o treinamento são diferentes. Mas ainda assim, há muitas carreiras de TI que eles podem seguir”.

As exportações de serviços de TI devem ultrapassar US$ 1 bi em 2007

Essa preocupação da IBM se justifica ao se observar o cenário de TI no Brasil. Um levantamento da consultoria IDC mostrou que atualmente há um déficit de 17 mil profissionais no país, e a Associação Brasileira das Empresas de Software e Serviços para Exportação (Brasscom) estima que este número salte para que o Brasil tenha pelo menos 1% do mercado mundial. “Há 45 anos o Brasil é excelente em TI, tanto que nosso mercado interno é muito maior que o da China e da Índia”, diz o presidente da Brasscom, Antônio Carlos Gil. “Porém, o mercado da exportação mundial cresce 40% ao ano, e precisamos aproveitar esta oportunidade”.

As exportações de software e serviços de TI no Brasil devem ultrapassar US$ 1 bi em 2007, segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio. Isso representa um aumento de 25% em relação ao ano passado. No entanto, o País se encontra muito atrás da Índia, o grande competidor nesse setor. O faturamento indiano para este ano deve chegar à casa dos US$ 31 bi e pode ultrapassar os US$ 100 bi até 2010.
“Caso consigamos suprir a demanda de profissionais e torná-los fluentes em inglês, o Brasil pode ir muito mais longe”, diz Sirlene, da IBM. “Para a exportação de serviços de tecnologia, o Brasil possui vários pontos fortes: um fuso horário e uma cultura mais próximas dos EUA e até um inglês com menos sotaque que o dos indianos”.

“as vagas existem, basta focar nas necessidades do mercado”, diz o estudante Pedro Bonugli de Lima, da Escola Técnica Camargo Aranha, em São Paulo. A escola é uma das que começou a parceria com a IBM. “É importante que as empresas tragam a noção de mercado para dentro das escolas. Isso incentiva os jovens, que estão preocupados com o primeiro emprego”.

Outras empresas também estão organizando parcerias com alunos cada vez mais jovens. JeffBrennan, vice-presidente da multinacional Altair Engineering, veio ao Brasil no fim de setembro para anunciar parcerias com universidades, desde os primeiros períodos. A empresa fornece software para as universidades, que têm prioridades e descontos nos treinamentos da Altair.

“Na Índia, fornecemos material didático às faculdades. Cada país tem suas dificuldades”, diz a gerente da Altair no Brasil, Eliane Feliz. “Suprir toda a mão de obra exige esforço prolongado. O governo tem de investir nas escolas e faculdades e as empresas não podem ficar paradas”.

A Tata Consultancy Services (TCS), empresa de tecnologia do grupo indiano Tata, possui parcerias com cinco universidades brasileiras e também começou a busca por profissionais no ensino médio técnico. Este ano, a empresa deve contratar pelo menos 70 jovens da Fundação Bradesco, em São Paulo. Porém, o diretor de relacionamento da TCS, Fernando Graton, diz que esses números ainda estão apenas “apagando incêndios”.

“Os países querem uma alternativa à Índia”, diz. “Mas para isso o Brasil tem que superar depressa a falta de mão de obra e as pessoas têm de escutar inglês”. A Índia, onde há um grande número de pessoas fluentes em inglês, detém 84% do mercado americano de serviços terceirizados; o Brasil tem menos de 1%. Ainda assim, para a Tata, o Brasil é a operação que mais cresce fora da Índia. “Se o governo investir nas escolas técnicas e as empresas treinarem, o País pode crescer em um negócio de bilhões de dólares. Se não, vai perder um bonde que está passando na porta”.

 

 

 
 
 
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